Sábado, 18 de Julho de 2009

As roupas, os operários, o sol e o mar

Rosa e Azul - As meninas de Renoir


O casal Arnolfini, Van Eyck


Quando vou a museus, ou quando vejo fotos de obras de arte, o que mais me atrai é ver como era a forma de vestir das pessoas. Nunca fui especialista em trajes, mas imagino que as roupas eram confeccionadas ou em algodão grosseiro, ou sarja, ou então seda e veludos, com brocados e fios de ouro. Creio que existia a seda fina, como aquelas que vemos no famoso As meninas em rosa e azul de Renoir, ou então a seda mais encorpada, ou o magnífico tafetá seda e veludos, que vemos na esposa no casal Arnolfini,de Van Eyck, debruados de peles autênticas, portanto caríssimos. Devia ser gritante a diferença de trajes entre ricos e pobres.

Conta-se que São João da Cruz, desejoso ao extremo de vestir-se com absoluta pobreza, escolheu como hábito para si e seus monges o burel, que creio eu ser algo parecido com o que chamamos de saco de estopa. E descalços, apenas os mais velhos calçavam sapatos.

Mas voltando aos museus, adoro ver as magníficas golas folhadas, as imensas armações dos vestidos, as mangas e os laços rendados das camisas dos jovens, e ao mesmo tempo em que acho belo, acho triste. Devia haver muita mão de obra miserável por trás daquele luxo todo, talvez mão de obra escrava mesmo. Para cada coquete luxuosíssima, imagino uma dúzia de pobres costureirinhas, passadeiras, frisadoras de cachos, colocadoras de apliques, maquiladoras, chapeleiras, aplicadoras de seda e pluma em sapatinhos, ou seja, um grupo enorme de servidoras para que uma desocupada arrancasse suspiros masculinos.

Será que isso mudou? O certo é que não temos mais sinhazinhas escravas nos servindo, mas o que dizer das manicures, pedicures, podólogas, maquiladoras, massagistas, cabeleireiras com suas escovas definitivas e tingimentos, depiladoras que nos depilam a alma, isso sem falar em máquinas que nos arrancam a gordura do abdomem, as famolas lipoaspirações...

Paremos por aqui, senão teremos de falar nos sapatos altíssimos que nos fazem rebolar as ancas, as calças justíssimas que nos revelam o mais íntimo das nossas curvas, e decotes e transparências e.....

Na verdade o que gosto de ver nos museus é até onde vai a nossa artificialidade. Porque o que me encanta mesmo, um encanto de menina, que me arranca o prazer da emoção autêntica, é ver Tarsila. E ver Tomie.


Operários, Tarsila do Amaral


Sol e Mar Tomie Ohtake

Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

Uma capela pra Jesus

Fazer coisas pra Deus é me por fora d’Ele, pensei, ou estou n’Ele ou nem sou.
Adélia Prado em “O homem da mão seca”


Já naveguei nas águas da ilusão de que deveria fazer algo muito importante para demonstrar meu amor por Jesus, ou, que deveria fazer algo imensamente importante pelo seu Reino.

Algo assim como: se eu não tivesse vindo ao mundo, o mundo estaria parado até aquele momento, sem solução, aguardando pela Bete, a salvadora.

Hoje vejo isso com facilidade, mas eu realmente já acreditei que de mim sairia uma enorme solução, tão enorme quanto o tamanho do meu ego. Até o dia em que descobri que Deus não precisava de mim para nada, Ele "conseguiu" fazer tudo perfeitamente sem os meus palpites, e vocês, sejam agradecidos por isso. Uma noite três vezes maior que o dia era só um dos meus planos mirabolantes para o bom funcionamento do universo.

Resolvi então, já um tanto mais moderada, que tudo o que fizesse, faria como sendo para Jesus. Meu trabalho, meu lazer, minhas coisas importantes e até minhas bobeiras. E querem saber? É o que mais tem dado certo. Claro que na grande maioria das vezes eu me esqueço disso totalmente; na maior parte do tempo eu caminho no automático, o que não deveria, mas o que não consigo impedir.

Todos sabem que para caminhar, a única coisa que é preciso fazer é dar o primeiro passo, daí para frente o seu corpo "caminha você". Então seguimos pela vida meio que ligados numa tomada invisível, nos movendo mesmo no automático; ter consciência plena de si é muito complicado.

Uma vez me disseram que consciência plena de si é algo mais ou menos como o estado em que se fica, se estivéssemos trancados num quarto escuro à noite sabendo que nesse quarto há uma serpente. Com todos os sentidos totalmente aguçados e em alerta, o tempo todo, o tempo todo, o tempo todo. Quem consegue?

Mas recentemente li um livro cujo nome me foge, de um autor chamado Henri Nouwen, que me ensinou a montar um santuário, uma capelinha, dentro de mim. E tentar visitá-lo pelo menos uma vez ao dia que seja. E não é que é bacana, e não é que funciona, e não é que é bom?

Sabem, acabo de voltar da rua onde estive: no Banco conversando com uma moça chamada Priscila. Na sequência troquei a bateria do relógio com um sujeito chamado Reginaldo, sou antiga cliente dele. Entrei numa lojinha e perguntei o preço de uma blusa roxa (não comprei), e ali ao lado comi uma esfiha de queijo e zahtar deliciosa, mais um suco de caju. Embarquei no metrô, fiz baldeação, desci numa determinada estação, já vinha chegando meu ônibus, sentei num cantinho vazio e vim para casa.

Não pensei em Jesus momento algum.

Mas agora, aqui, enquanto escrevo, me veio à lembrança o santuário interior proposto pelo Padre Nouwen, e é com essa imagem que eu me despeço de vocês, é esse o meu pão para hoje. Se você ainda não tem sua capela interior, vai aqui o conselho do bom homem, construa a sua. Do jeitinho que você quiser. E a visite, sempre que lembrar. E deixe o resto no automático, deixe por conta do Pai.



As imagens foram tiradas da net

Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

O meu Eu melhor

"Jesus, vendo-o deitado e sabendo que estava assim há muito tempo, perguntou-lhe: Queres ser curado? Respondeu-lhe o enfermo: Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque, quando a água é agitada (pelo anjo); pois enquanto vou, outro desce antes de mim."

"Então, lhe disse Jesus: levanta-te, toma o teu leito e anda." Do Evangelho de S.João

Creio que já andei falando aqui de bolsa organizada versus vida organizada, de fazer no mundo físico o que queremos ver no mundo das idéias, aquilo que alguns chamam de fazer acontecer. Gandhi dizia que devemos ser a mudança que queremos ver no mundo.

Assim na terra como no céu.

Penso que a cura física nada mais é do que se trazer ao mundo palpável o Eu perfeito que se encontra no mundo das idéias, e acho que é por essa linha de pensamento que muitas correntes de pensamento ensinam a pensar positivo. Mentalize você curado, eles dizem. Pena que apenas uma porção infinitésima da sociedade o consegue, uma prova, a meu ver, de que não é tão fácil assim.

Jesus, o médico dos médicos o conseguia com uma facilidade espantosa, com um simples toque de mãos. Ele olhava para um leproso e o via limpo, para um cego e o via enxergando, para um paralítico e o via caminhando. Ele dava ordens e as forças da natureza se acalmavam. Jesus tinha contato constante com o mundo físico e o mundo das idéias, e não só contato, Ele tinha autoridade sobre o invisível. Quando dizia a um inválido levanta-te e anda, sabe-se lá com que forças sinistras, com que pensamentos-forma Ele estava falando. Mas que deveriam tremer, que não esperavam segunda ordem, que xispavam dali. Daí o povo achar que doenças eram demônios.

Há uns dias eu disse aqui que deveria existir um Eu perfeito de Bete em algum lugar, e isso provocou vários tipos de reação dos meus queridos. Houve quem entendesse, quem se emocionasse, quem ficasse com peninha de mim e até quem respondesse com sarcasmo, e todas as respostas foram bem vindas, amo tudo o que vocês me dizem, tenho aquela mania talvez ingênua de achar que tudo vem de Deus.

Mas acredito, sim, no meu Eu perfeito, na minha fôrma original, tanto quanto acredito na sua fôrma original, na fôrma original do país, do rio Amazonas ou da seleção brasileira.

As coisas não deveriam ser como são. Mas sabe-se lá que demônios, devas, djins, gênios do mal, manitós, espíritos, anjos malévolos, sabe-se lá que pensamentos-forma atuam para deixar este mundo tristonho como ele está.

Só Jesus, só Jesus, só Ele tem poderes para dar ordens ao invisível. A todos os exércitos do mal que vivem no mundo invisível, e não se iluda, que são tão reais quanto você e eu. E sabe qual é a única missão deles? Entristecer você. Pela doença, pelo desamor, pela falta de perdão ou tolerância, pela desarmonia no lar ou no emprego, pela falta de dinheiro, de emprego, de soluções, de...de...de...

Entristecendo-se, você se afasta de Deus, das águas curadoras, e assim retro alimenta o círculo do mal.

Jesus está sempre passando pelas margens dessas fontes pretensamente curadoras, onde se ajuntam os desavisados, à espera de anjos que agitem águas de cura, as águas da solução. Elas podem até ter nomes e aparências inocentes, muitas de fato o são: um namoro, uma balada, uma viagem, um diploma, são até necessárias na maioria das vezes. Mas não são soluções para almas feridas. - O que você faz aí? Heim? Não consegue se curar nas águas do pensamento disso ou do pensamento daquilo? Saia daí, vem comigo, levante-se.

Levante e ande.

À medida que Jesus passa pelas vidas, ele vai liberando o Eu perfeito delas, de alguma forma. De alguma forma. Eu creio. E é por crer que continuo seguindo a Jesus, é por crer que caminho com Ele na busca do meu Eu perfeito, que um dia se fundirá ao Dele, como um só. Virão Dele minhas águas restauradoras.